#Soneto42: Fábio Bonvenuto / Música do Silêncio

Publicado em 14 de setembro de 2020




Bom dia, boa tarde, boa noite!

Neste podcast, Josisley de Souza  recebe o Professor Fábio Bonvenuto,  criador do projeto Música do Silêncio, que oportuniza pessoas com deficiências auditivas à ter acesso ao aprendizado de música. Um projeto incrível que tem impactado e modificados vidas!

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No Ritmo da Vida. Na Batida do Coração!

Equipe Toque2

@toquedois

QUEM FEZ?

Vinheta de Abertura: Josisley de Souza

Arte da Vitrine: Josisley de Souza

Vírgula Sonora: Débora Meneses

Abertura: Estepes / Regência Cristina Kaizer

Toca na Pista: Coro dos Ferreiros / G. Verdi

Edição: Eduardo de Oliveira

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Fábio Bonvenuto
Professor / Músico

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Site oficial: www.musicadosilencio.com

Filme: O Poço (2019)

Filme: Encontrando Forrester (2000)

VÁ DIRETO AO PONTO!

Introdução: 00:00:18

Vírgula Sonora: 00:02:16

Programa: 00:03:15

Dica Cultural: 00:47:15

Toca na Pista: 00:50:15

Tempo Total: 00:56:01

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Transcrição do PodCast para acessibilidade há deficientes auditivos:

INÍCIO

Vinheta de Abertura: Podcast Soneto – Música em Palavras. Uma produção do site Toque2 Bandas & Fanfarras.

Áudio do Youtube:  Estepes / Regência Cristina Kaizer

ABERTURA:

Josisley: Bom dia, boa tarde, boa noite. Sejam bem vindos a mais um Toque2 podcast Bandas & Fanfarras – no ritmo da vida, na batida do coração. Eu sou o Josisley e estou aqui diretamente de Ribeirão Pires, São Paulo e hoje eu vou falar de um tema que eu estou devendo já há muito tempo com um convidado também muito bacana, que já há muito tempo que eu quero bater esse papo com ele e a gente vai saber onde ele está neste momento. Está aqui comigo o maestro Fábio Bonvenuto, seja bem vindo ao Toque 2.

Fábio: Boa noite, obrigado, Josisley, já pelo convite, pelo carinho. O Toque2 aí que tem um trabalho fantástico aí, no meio de bandas orquestras… e isso é fundamental para o nosso meio e para a nossa sobrevivência mesmo, não é?

Josisley: Com certeza. É um tema que a gente gosta muito -música, não é? Então, vamos falar dos diversos aspectos da música até quando não há música – é a música silenciosa. A gente vai falar um pouco mais sobre isso, logo depois da nossa Vírgula Sonora.

Vírgula Sonora: Olá, você está ouvindo o podcast do Toque2 Bandas & Fanfarras do site toque2.com.br. Você também pode ouvir os nossos podcasts através do aplicativo exclusivo do Toque2, disponíveis para os sistemas Android e IOS. Para entrar em contato conosco você pode acessar as nossas redes sociais através do nosso site ou então pelo e-mail contato@toque2.com.br. E, se você gosta do nosso trabalho e deseja nos ajudar a produzir um conteúdo com qualidade cada vez melhor, acesse a nossa plataforma de contribuição pelo site apoia.se/toque2 e veja como contribuir. Este podcast tem o apoio cultural do Portal Brasil Sonoro. Clique, ouça e toque. Para ter acesso às partituras, digite o site brasilsonoro.com

Josisley: Muito bem, maestro Fábio, eu já falei algumas vezes aqui no Toque2 que a minha mãe tem uma deficiência auditiva. E, em um bate-papo com maestros e amigos do meio da música, esse tema acabou vindo à tona e falaram “Pô, o maestro Fábio Bonvenuto, ele tem um trabalho voltado para pessoas que tem deficiência com a audição e tal e eu achei aquilo incrível. Obviamente, fiz associação direta com aquele filme Mr. Holland, o Adorável Professor, que o filho dele, no filme, tem uma deficiência também e tal; é surdo. Puxa, e aquilo explodiu minha cabeça e eu fui atrás de artigos que falava sobre o seu trabalho, vi várias entrevistas que você deu, estão todas aí disponíveis na internet, vou linkar algumas aqui para o nosso público. Então, foi assim que a gente fez esse contato e isso deve ter pelo menos já uns 2 ano e calhou que a nossa agenda conseguiu aí forçadamente, felizmente, mas conseguimos aqui. Então, esse é o contexto de como eu cheguei até o maestro e nesse bate-papo que a gente faz aqui com personalidades do meio, normalmente, eu faço 3 perguntas aqui para começar. A gente já sabe qual que é o seu trabalho, mas talvez algumas pessoas tenham curiosidades mais específicas. Eu queria que o senhor respondesse, primeiramente assim, se não for incômodo, qual que é o seu nome, qual que é a sua idade e qual a sua profissão – aquela profissão que coloca a comida na mesa?

Fábio: Meu nome é Fábio Bonvenuto, tenho 52 anos e sou professor de música. Vivo disso, sustentei minha família todo esse tempo e espero continuar sustentando. A música, para mim, ela me resgatou, ela me mantém e ela me sustenta.

Josisley: Que bacana. Maestro, eu acho que você por si só, obviamente, tem o brilho do seu trabalho, o esforço todo que você tem te levou até onde você está. Mas, é inegável a gente, que é do meio de bandas e fanfarras, participar de um campeonato e não associar este nome Bonvenuto. Você tem alguns parentes aí, no meio da música aqui em São Paulo, não tem?

Fábio: Tenho sim. Tenho o meu irmão Marcelo Bonvenuto, maestro; tem o Antônio Bonvenuto, o Toninho, que é coreógrafo; Ricardo Bonvenuto, que é trompetista; o Carlo Bonvenuto, que é saxofonista agora, ele foi trombonista, estudou com Donizete Fonseca, tocou com a (Modi Musicali) [00:05:57]; e o meu irmão mais velho, que não é da música, que é o Valdir Bonvenuto.

Josisley: Olha, eu conhecia já o Marcelo e o Toninho e acho que o pessoal chamava ele de Alemão, não é?

Fábio: Isso, Alemão.

Josisley: Obviamente lá (naquela) época do Colégio Progresso e tudo… vamos pegar um pouquinho antes de falar obviamente sobre o core do seu trabalho. Você participava de bandas e fanfarras? Participou desses campeonatos malucos com a sua família? Como que foi essa sua entrada na música? Enfim, fala um pouco para a gente sobre isso.

Fábio: O meu pai era militar e na época nos anos 70 ele era o instrutor de fanfarras, na época. E ele tinha um trabalho com a prefeitura de São Paulo, na qual a gente participava dos campeonatos da Rede Record, era São João… eram trabalhos, assim, fantásticos. Certa vez, acho que em 76, 77, ele chegou a ganhar o primeiro e segundo lugar com duas fanfarras que ele tinha na época. Ele foi maestro da Nossa Senhora de Sion, que depois recentemente o Marquinho tinha assumido – e hoje continua –, que hoje virou inclusive a Banda Irmã Dina de Sion. Irmã Dina, que era uma freira que acompanhava meu pai na época. Meu pai foi também da Marechal Rondon, da Pedra Branca, entre outras. Um dos alunos do meu pai também foi o Sadao, maestro Sadao.

Josisley: Carácoles…

Fábio: Hoje ele está na Banda Sinfônica lá em Cubatão. Também ele foi da Banda Sinfônica do Estado… é um grande maestro. O meu avô veio da Itália fabricar instrumentos no Brasil. Ele trabalhava na Weril, ainda época da… que estava na Brigadeiro Tobias e, assim, desde o início o meu pai contava, e meu avô também contava, que eles estavam trabalhando na oficina da Weril e de repente a mãe de um deles lá descia um cesto com pães para todos os funcionários no lanche da tarde. Eu acho que era mãe do Roberto, eu acho, Roberto Weingrill.

Josisley: Roberto Weingrill. Teve uma entrevista dele aqui no Toque2. Bom, então, superficialmente, mas já deu para a gente entender que isso vem de família, não é? E você toca que instrumento?

Fábio: Minha formação inicial é percussão sinfônica. Fui aluno da Elizabeth Del Grande na Escola Municipal de Música, participei da Banda Sinfônica da Polícia Militar – era sargento músico – e depois de um acidente na mão – a mão esquerda – estava fabricando baquetas para tímpano, eu acabei… um aluno entrou na sala, bateu na minha mão e a furadeira pegou na mão esquerda e eu fui para o trompete, e aí dava para tocar com a mão direita e aí…não perdeu o contato com a música.

Josisley: Entendi. Você chegou a participar de campeonatos na época lá do Progresso, Jardim São Paulo, você com os seus irmãos, ou você sempre teve uma outra linha de música, trabalhou em outra vertente?
Fábio: Não, não. Eu, tinha uma escola, uma fanfarra simples, a Ângelo Bortolo, da qual nós participávamos de campeonatos e depois da Guilherme de Almeida, participávamos de campeonatos. Nunca chegou a ficar na crista da onda não, mas a gente agrava bem. Eram fanfarras que eram bem simpáticas ao público. Eu lembro, assim, um dos campeonatos em Caieiras, onde nós tocamos lá Sonhos de Uma Noite de Verão e aí a (plateia) [00:09:18] inteira cantou com a gente. O Marquinho, na época no Azevedo, veio, me pediu e falou assim: “Senhor Fábio, será que posso fazer um arranjo para essa música para minha banda?” e a relação sempre foi muito boa.

Josisley: Só uma curiosidade, esse Sonhos de Uma Noite de Verão é alguma música brasileira ou é o tema do filme Sonhos de Uma Noite de Verão?

Fábio: Eu acho que é o tema do filme.

Josisley: É, agora me fugiu, mas eu acho que é um filme do George Lucas, cara, o cara do Star Wars. Eu tenho a impressão… é uma loucura isso, ou é… eu acho que é isso aí. Eu acho, eu vou pesquisar aqui e depois a gente vê. Legal, cara, bacana. Bom, vocês são todos muito parecidos, não é? Com exceção do Alemão, que ele deu uma inchadona – agora ele está mais magro novamente – você parece muito com o Marcelo. Eu, certamente, se encontrasse vocês na avenida um e depois o outro, jamais eu conseguiria saber quem é quem.

Fábio: Só complementando isso aí, alguns alunos surdos meus acham que nós somos gêmeos. Teve, inclusive, uma apresentação que nós estávamos no campeonato de bandas e fanfarras da cidade de São Paulo, eu precisei sair para atender um aluno cadeirante na apresentação e o Marcelo, meu irmão, assumiu a regência. Mas, assim, no meio da música. Como nós dois estávamos de preto, parece que ninguém percebeu a troca.

Josisley: Meu deus do céu…

Fábio: …eu saí, socorri o aluno, depois voltei e continuou normal. Teve, inclusive, uma reportagem da Rede TV que eles estavam gravando uma reportagem e mostra: começa a regência da música comigo e depois, no meio, aparece o Marcelo e finaliza comigo de novo.

Josisley: Fantástico… fantástico mesmo. Puxa vida, meu. Só banda e fanfarra mesmo para acontecer esse tipo de coisa.

Fábio: Com certeza.

Josisley: Bom, vocês estava lá, regendo as suas fanfarras, fazendo suas baquetas, agora aprendendo trompete e tal… e como, qual foi a conexão, como que aconteceu isso, de você dar aula – eu vou falar surdo porque a Carolina Araújo falou assim, que deficiente… ela não é deficiente, que ela preferiria que chamasse de surdo – então, como que você de repente estava dando uma aula para surdo, cara? Como que foi essa transição?

Fábio: Então, isto é uma história que vem primeiro do braile – que a musicografia é braile. Então, antes do surdo me apareceu… eu sou professor do Conservatório Municipal de Guarulhos. Então, lá atrás veio um aluno cego, que é o Pietro, e ele queria muito estudar música, uma vez que ele não nasceu cego. Ele ficou cego aos 15 anos. Na época, ele não tinha como escrever partitura para ele. A musicografia braile é uma notação, uma escrita, que foi inventada juntamente com a ortografia porque o Louis Braille, que inventou o Braile, a tecnologia da escrita em relevo, ele era músico. Então, junto com as letras, o alfabeto ele também fez o código musical e demorou muito pra chegar isso no Brasil. Aí, uma professora que é a Dolores Tomé da Escola de Música de Brasília, juntamente com Antônio Borges, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, os dois elaboraram um software que é o MusiBraille, um software que permite a gente transcrever a partitura para o braile. Então, a história com o surdo veio depois dessa integração com o cego. Então, com o cego, nós conseguimos popularizar no Conservatório – para você ter uma ideia: Guarulhos, uma cidade de 1 milhão 300 mil habitantes, tem muitos cegos. A primeira impressora braile da cidade de Guarulhos foi a do Conservatório Municipal de Guarulhos para produzir partitura para o cego.

Josisley: Quando que aconteceu isso? Mais ou menos, em que época, anos 90, 2000 já…? Quando que foi?

Fábio: No ano 2005.

Josisley: 2005… muito recente, inclusive, então. Sobre essa questão do visual, você conhece o Lar das Moças Cegas de Santos? Acredito eu que sim?

Fábio: Conheço. O Paulo que trabalha com a musicalização lá.

Josisley: Bacana, cara. Puxa, eu estive em Santos ano passado, no campeonato e eles desfilaram. Pensa, pessoas sem visão desfilando… você olha aquilo… e tem uma entrevista que eu fiz com umas senhorinhas que estavam por lá, eu vou deixar o link aqui no post para o pessoal vir também, é bastante interessante. Agora, você falando que a pessoa que inventou o braile era músico, de repente, para mim, isso tudo fez muito sentido, porque a música, ela é uma codificação de uma linguagem, não é? Você transformar a fala, o som, em uma (anotação) que possa ser reproduzida pelo (próximo) e tal. Então, muito interessante, eu não tinha essa informação.

Fábio: É, e complementando, na época, Louis Braille, ele ficou cego, porque ele foi ajudar o pai. O pai dele trabalhava com curtume e ele, no que ele foi trabalhar lá com aquelas agulhas, ele acabou ferindo o olho. Um olho passou a infecção para o outro olho, então ele ficou cego total. Lá na escola ele desenvolveu um método braile de escrita. Já existia um outro método, uma outra tecnologia na França, que era de pontos, que era para levar mensagens na guerra. Então estava codificado em pontos, então o inimigo se pegasse aquele papel não sabia o quê que era. O Louis Braille pegou isso e transformou em texto, em alfabeto, codificou mesmo. Então, são 6 pontos que, combinados entre eles, dão 43 combinações. Até então, na França, poucas pessoas utilizavam esse método. Foi uma pianista cega, tocando para Napoleão Bonaparte, e ele foi então parabenizá-la e ela falou assim: “Olha, nada disso seria possível se eu não tivesse aprendido partitura em braile. E aí ele falou assim “Que que é isso?”, “O Louis Braille quem inventou”. Foi aí que Napoleão então teve contato com o método braile e obrigou, então, na França, que isso fosse obrigatório – assim, o uso do método braile para a alfabetização de crianças cegas. Dom Pedro II, depois, sabendo disso, trouxe o método braile para o Brasil. Porém não veio ainda a musicografia. A musicografia veio só em 96.

Josisley: Carácoles… Olha, eu não tinha noção de nada disso que você está me falando. Para falar a verdade, para mim, braile era alguma sigla que tinha um significado muito maior, nunca que eu ia parar para pensar que é o sobrenome de alguém. Fantástico, maestro. Muito obrigado, e eu ouso a dizer que muitos de nossos ouvintes também não tinham essa referência, não, viu? Puxa vida, legal. Aí, entra esse aluno que tem essa deficiência visual, você então dá uma atenção especial para ele – pelo o que eu entendi na história – e tal, e aí isso que foi a sua evolução para chegar até os surdos. Como que foi isso daí?

Fábio: Então, no Conservatório então tivemos alguns alunos. Assim que a comunidade de pessoas com deficiências que… ADPD e outras entidades que trabalhavam com capacitação, souberam do trabalho, divulgaram e alguns surdos se interessaram. Porém, havia uma dificuldade para a família trazê-los para a escola de música, para o conservatório, porque achava muito distante da realidade deles, então, a própria família não acreditava. Foi quando o Marcelo, meu irmão, estava como coordenador de bandas e fanfarras da Secretaria Municipal de Educação e ele passou uma circular nas escolas municipais de São Paulo, perguntando se aquela escola tinha instrumento e se tinha interesse de montar uma banda ou fanfarra. Foi quando esse documento foi parar em uma escola municipal de surdos, que é a EMEBS Madre Lucie Bray. Essa escola, então… a diretora podia ter pego esse documento e falado assim: “Olha, aqui é uma escola de surdos e a gente não tem interesse.” Ela era extremamente democrática, a Claudia Vendramel, uma das diretoras que eu mais respeitei na minha vida, porque ela foi de sala em sala explicar em LIBRAS o que era esse documento, e aí as crianças surdas, 12, falavam “eu quero, eu quero”, sinalizaram que queriam e nós começamos um trabalho, primeiro, da leitura, da partitura, do código musical e encontrar sinais em Libras que pudessem ter sentido para eles. Então, por exemplo, se você falar da nomenclatura das figuras musicais, nós chamamos a semibreve, porque veio até nós dessa forma, mas em espanhol ela é redonda; em inglês, ela é whole note – inteiro. Cada um pega uma característica. Se você for falar da mínima, para nós, é mínima; em espanhol, é blanca; em inglês, half note, quer dizer, é metade. Então, o americano, ele pega o código pela matemática. Então, é inteira, metade, um quarto, um oitavo; em espanhol, é pelo desenho. Então é redonda, branca, é negra, e é colcheia. Então com o surdo, então, eu usei mesmo redonda, branca: sinal do branco em libras; a negra: sinal de negra; colcheia, então, uma bandeirola; semi colcheia, duas bandeirolas… Então, foi bem pelo visual e aí a gente conseguiu então com esses 12 se tornar 30, depois 50, e aí muitos desses alunos surdos… aí foi o caminho inverso. Então, não era do conservatório para uma formação de um grupo, mas sim da escola básica de surdos, esses alunos foram para o conservatório e lá, então, se aprimorando.

Josisley: Se eu entendi, você passa primeiro toda uma questão teórica para que eles entendam o significado, dando um nome para as figuras musicais, não é? Utilizando esse recurso de como é chamado em cada língua, nesse momento é o momento que você vai falar também dos tempos? Quanto que vale essa figura, vale tanto, essa vale 1; essa vale 2; enfim… é nesse início, você prepara ele totalmente com essa questão teórica antes de entrar no que seria efetivamente o som, a representação sonora?

Fábio: Não, não. Na verdade, tem que entrar junto, tem que entrar junto. A gente começa pelo pulso. Então, já começa utilizando… pegamos a semínima como unidade de tempo e aí mantém ela como unidade de tempo. Essa relação de deixar, por exemplo, a colcheia como unidade de tempo ou a mínima como unidade de tempo, nesse momento não é fundamental para o aluno. Porque só vai confundir. Então, é importante que ele tenha uma referência. E, como o surdo – deixa eu só fazer um adendo aqui…

Josisley: Claro, claro.

Fábio: O fato de você dizer deficiente auditivo, é aquela pessoa que não é surda, mas ela tem uma perda significativa. A comunidade surda é uma comunidade muito ativa e atuante. Assim, alguns – não sei como que eu vou falar assim, sem ser grosseiro – mas, alguns chegam a ser tão radicais que eu já vi, assim, diálogos de surdo onde um casal de surdos disse que se o filho nascesse ouvinte eles perfurariam o ouvido dessa criança porque eles não saberiam educar uma criança ouvinte. Então, chega a ser radical até.

Josisley: Radical…

Fábio: É. Então, voltando na figura musical, nós iniciamos seja com a marcha, seja com o movimento do corpo, balanço, jogo de bola… tudo o que ele possa sentir que aquela pulsação, ela é: frequente, regular, simétrica. Então, ele percebe essa pulsação. Então, a primeira coisa, realmente, é: a semimínima – que para eles, a negra; depois, figuras mais longas. Então, a mínima, a blanca, e a redonda, que é a semibreve, para depois diminuir. Então, nós ampliamos. Então, ele está batendo, está mantendo o pulso, então eu faço uma ligadura entre duas semimínimas para que ele possa perceber que o tempo vai continuar marcando, porém a batida não vai acontecer de novo. Então, uma sim, outra não; uma sim, outra não, aí eu substituo essas duas por uma mínima, depois duas mínimas por uma semibreve.

Josisley: Fantástico.

Fábio: E desde o início é muito importante que ele perceba, por exemplo, nas batidas, no golpe que ele dá, que ele pode alterar isso, ele pode interferir – que é a parte da improvisação. Então, ele mantém uma pulsação, ele pode sair dessa pulsação com outro desenho, aí vai assim… é uma coisa que ele precisa absorver porque como se fosse uma garatuja musical.

Josisley: Que que é uma garatuja?

Fábio: Garatuja no desenho é aquele rabisco que a criança faz antes de ela chegar em uma figura que possa parecer uma pessoa.

Josisley: Ah, legal, legal.

Fábio: Então, a garatuja é só aquele rabisco, mas a criança muitas vezes essa garatuja, esse desenho, e ela já pega outra folha e faz outro desenho, então ela não fixa no desenho ao ponto de aprimorar esse desenho… é só o desenho pelo desenho, uma catarse apenas. Muitas vezes o surdo fica também apenas na repetição e isso não é bom. Porque a repetição, tudo bem, ela tem a sua função só que ele precisa encontrar a linguagem dele, ele precisa encontrar a voz dele no instrumento. Então, a improvisação… A Violeta Gainza, não sei se você conhece, da Argentina?

Josisley: Não, não conheço.

Fábio: Que (trabalha) com a educação musical, foi a diretora do Conservatório do México, veio ao Brasil várias vezes, deu muitos cursos de improvisação musical e valoriza muito isso – que é essa questão da improvisação – onde quando ele entende que aquele desenho fez sentido? Ótimo. Agora fez sentido, agora de que maneira a gente pode ampliar esse desenho? Quer dizer, a frase pode ser maior? Ou, teve muita nota? Tem que diminuir? Eu vou dar um exemplo: nós participamos dos campeonatos com a banda também, com a… principalmente, dentro do campeonato da prefeitura de São Paulo e em uma das apresentações, nós estávamos no Colégio Consolata, com a banda fazendo uma apresentação e aí tinha um piano súbito no meio da música. Todos diminuíram, menos um aluno ouvinte que estava empolgado olhando pra plateia, não percebeu a banda inteira diminuiu e ele continuou tocando forte. Uma aluna surda, que é a Alessandra, virou para trás, deu bronca no ouvinte, mandando ele diminuir, porque ele estava errado. Então, aí você percebe que o processo funcionou porque ela sabia o que estava acontecendo; ela não estava apenas imitando. Então, essa é uma preocupação que se tem com a relação à educação musical do surdo, que não vire apenas na cópia, mas que ele possa entender o processo que ele está participando.

Josisley: Ele evolui o conhecimento, ele adquiriu um conhecimento, ele vai evoluir esse conhecimento, não é? Fantástico, fantástico. Quando você me falou que era percussionista tudo fez mais sentido para mim, porque, apesar da deficiência auditiva, ou do surdo como queira, para mim faz mais sentido explicar como você colocou, criar o bit ali para que ele entenda a duração do tempo do movimento, enfim, n-metodologias possíveis aí. Mas a sua banda, pelo o que eu andei vendo, ela não é só de percussão. Você tem instrumentos sonoros também. Sonoros que eu digo o sopro e tal. Que instrumentos você tem desses de sopro e o que que muda na metodologia entre a percussão e o sopro? Metodologia, só para te explicar, é obviamente que eu já conversei com a Carolina e ela me passou algumas informações, mas eu não estou interessado. A Carolina é Carolina, ela fez a fundação, semiprofissional e tal. Estou perguntando a você, Fábio Bonvenuto, que está ali, ensinando, você tem que passar esse seu conhecimento para alguém, não é? Então, eu acredito que você tenha uma experiência diferente do que a experiência da Carolina que ela é surda.

Fábio: É, a Carolina ela não nasceu surda; ela ficou surda.

Josisley: Isso, a experiência dela é outra.

Fábio: É outra. Então, eu tenho algumas situações que eu gostaria de exemplificar.

Josisley: Ótimo, fica à vontade.

Fábio: Uma das referências com relação à música e surdez é uma percussionista surda escocesa Evelyn Glennie. Ela nasceu ouvinte, estudava piano, aos 10 anos adquiriu uma doença. Aos 12 anos, ela ficou surda. Quando ela ficou surda, o médico da família disse “Ela é surda, então agora para com a música”. E ela questionou isso. Ela falou assim: “Peraí. Até hoje eu escutava e eu tocava…” e, para ela, música era tudo. Então, ela chega e fala assim “Não é a medicina, não é a ciência que vai me dizer o que eu posso e o que não posso fazer, não é?”. Porém, as escolas de música na época não a aceitaram como aluna, por conta da surdez. O pai teve que pagar um professor particular para que ela pudesse ter aulas de percussão. Ela era pianista, ela acabou indo para a percussão, ela desenvolveu uma metodologia própria. Quando chegou na época da faculdade, foi a mesma novela: teve que brigar na justiça para poder fazer a faculdade. Hoje ela toca mais de mil instrumentos. A Evelyn Glennie se apresentou já por duas vezes aqui no Brasil, com a OSESP. Então, é uma artista de alto rendimento. O que nós temos que tomar muito cuidado é que, quando a gente a fala da música e a pessoa com deficiência, muitas vezes espera-se sempre o excepcional; e nem sempre é. Às vezes, é apenas uma criança que tem uma deficiência, quer dizer, ela vai ter uma dificuldade muito maior do que quem não tem a surdez para poder aprender o instrumento. E nem sempre ela vai ser excepcional; ela vai ser, às vezes, assim, vamos falar nosso linguajar, ela vai ser mediana. Vai tocar um instrumento.

Josisley: Se o maestro me permite, eu fiz uma leitura do que você acabou de falar aqui, que é o que acontece, por exemplo, nos Estados Unidos, e aconteceu comigo também. Eu via a banda e fanfarras, gostava daquilo e queira participar daquilo. Hoje, eu não sou um músico profissional. Eu trabalho com informática, mas toda aquela vivência ali me proporcionou, além de bons momentos, boas histórias, também contribuiu com a minha cultura e eu realmente acredito que a minha vida profissional – que não tem nada a ver com música – me proporcionou isso, me proporcionou esse momento que eu estou vivendo, e musicalmente falando, eu sou um zero à esquerda, realmente não sou bom, eu não sou excepcional, mas eu gostava muito daquilo e aquilo me ajudou a desenvolver outras habilidades, e só corroborando com o que o maestro falou.

Fábio: Mas nós entendemos isso mesmo – que a música, o ensino da música não é para formar profissionais da música, a não ser que a pessoa queira. Aí sim, ela vai levar para um conservatório. Keith Swanwick, ele tem um livro que foi traduzido para o português, que é Ensinando Música Musicalmente. Então, você tem o ambiente da música ensinada dentro de uma oficina; você tem um ambiente da música ensinada dentro de uma escola regular; você tem o ambiente da música ensinada dentro de um conservatório municipal musical. Em uma oficina, são projetos que tem começo, meio e fim. Por exemplo, o banda, o banda & fanfarra, você se prepara, aprende toda aquele repertório – muitas vezes é um repertório curto, às vezes, 6 músicas só no repertório – que é: música de entrada, a música de saída do palanque, 2 músicas no palanque de confronto; e, às vezes, mais umas 2, que é para quando faz as apresentações dentro do colégio ou em outros lugares também. Então 6 músicas, basicamente. E que todo ano troca, lógico. A música dentro da escola regular tem uma continuidade e ela tem um caráter de colocar a criança em contato com a linguagem musical. E é importante que não seja apenas a brincadeira, não seja apenas o jogo, mas que ela tenha contato com a escrita porque é a formalização da música. Quando ela passa pela escola, quando ela passa por uma oficina e ela fala assim: “Peraí, é isso o que eu quero fazer, eu quero me aprofundar”. Aí sim, ela vai para um conservatório musical, onde ela vai aprimorar, vai ter aula de teoria, vai ter aula de harmonia, vai ter aula de contraponto, vai ter aula de história da música e a prática instrumental e prática de conjunto, um segundo instrumento auxiliar… quer dizer, é muita coisa para quem quer se profissionalizar. O surdo, eu vou dizer para você, tem alunos que, pelo fato de ter estudado música, a conduta dele em um emprego é diferente, a conduta dele com a sociedade já se torna diferente porque quando ele está tocando ninguém sabe que ele é surdo. Só na hora que ele fala, porque o surdo, você só sabe que ele é surdo na hora que ele tem que se comunicar. Caso contrário, ele toca e ninguém sabe que ele é surdo, e ele recebe os aplausos como todo mundo. E aí, então, é a inclusão de fato. Outras situações de alunos que só pelo fato de tocarem na banda, eles começam a ter contato com um universo… porque eu trabalho com crianças não apenas surdas, mas trabalho com os surdos carentes. Até hoje, nunca trabalhei em uma escola de surdos de elite. Só trabalhei na periferia. Então, o mundo deles é muito restrito. A família muitas vezes não sabe Libras. Então, ela não conversa com eles. Então, agora que tem os celulares, que eles conseguem, através de vídeos de chamadas, conversar com outros amigos, mas antes disso – e vamos falar de 2005 que não tínhamos nada disso – a vida deles era muito deprimente porque eles ficavam no quarto, porque a família ficava na sala assistindo a novelas e eles não tinham o que fazer. Quando eles aprendiam um instrumento, pelo menos eles podiam praticar esse instrumento em casa. E aí eu falar da outra metodologia, que é a metodologia de ensino de instrumentos de sopro para surdo. Eu tive uma dificuldade no início que um aluno queria tocar trompete. Ele é surdo, o Diego, e eu ensinei o buzzy, fazer a abelhinha, tocar no trompete, fazer no bocal. Porém, deixava ele fazendo o exercício. Quando eu voltava, estava fazendo exercício, voltava, não escutava mais o trompete. Eu falei assim “O que que está acontecendo?”, chegava lá, ele… ele estava cantando no bocal porque quando você canta no bocal, vibra o corpo do trompete e ele pensa que está tocando, ele achava que estava tocando.

Josisley: Meu deus do céu…

Fábio: É, por que aí você tem que entrar com o que? Com a consciência corporal, de ele saber o que está acontecendo…

Josisley: Desculpe te interromper, mas é uma responsabilidade muito grande. O senhor mexe com anseios da alma da pessoa, meu deus do céu. Como que você chega em casa, todo dia? Como que… vamos pausar essa história do garoto? Fala para mim, como… como você se vê, como que se sai de um ambiente desse e chega em casa, sabe…

Fábio: A minha esposa também dá aula de música, então a gente compartilha muitas essas experiências. Para mim, é muito gratificante quando eu encontro uma solução e angustiante enquanto eu não encontro, não é? Porque eu preciso encontrar um meio, eu preciso me colocar no lugar dessa criança, porque eu quero solucionar isso. Eu quero encontrar um meio, um método – se eu posso dizer assim – um método que eu realmente utilizo é um método de experiência formativa. Então, através da experiência é que ele vai formando o conhecimento, formalizando a linguagem musical e tudo o mais. Então, eu me sinto um desbravador, talvez.

Josisley: Existe um, porque… eu não sei, talvez eu… é que eu estou muito longe da sua realidade, mas existe um método: “Ó, é assim que se ensina” ou isso você… empirismo mesmo, experimentação do dia a dia: “Tenta isso”, “Vou tentar passar essa informação para esse garoto dessa forma, depois dessa outra forma” e foi criando, ou tem lá, um livro, efetivamente, que alguém escreveu, “Olha, eu comprovei já, isso aqui funciona”…

Fábio: Olha, na verdade é o seguinte, alguém tem que ser o adulto da história. Então, o professor precisa primeiro saber aonde quer chegar com o aluno, porque cada aluno é único, principalmente por conta da deficiência. Em um método de ensino coletivo você coloca lá 20, 30 crianças, põe um método e vai todo mundo ali, com direcionamento, lendo, tocando e acompanhando. Com o surdo já não dá, é uma coisa única, é aquele aluno, naquela situação, até porque ele traz a bagagem dele da vivência. Então, se é um surdo, por exemplo, que é da Congregação Cristã no Brasil – uma igreja – e que tenha prática da banda, então, ele está acostumado a ouvir os instrumentos ou sentir os instrumentos. Então, às vezes ele se encanta pelo visual do instrumento, um trompete dourado, ou então uma tuba grande, ou um violino. Eu já tive um aluno surdo que queria tocar violino, queria tocar violino e falei assim: “Vamos lá, vamos tentar”. Ele tinha muitas dificuldades. Eu falei assim: “Mas é esse o instrumento? Quer experimentar outro instrumento?”, e ele experimentou o saxofone – é o Daniel. E ele “Ah, gostei do saxofone…”, “Gostou? Por que está tocando violino?”, “A mamãe quer”. “Então, a mamãe toca violino e você toca o saxofone”. E com o saxofone ele conseguiu ler, conseguiu tocar, conseguiu desenvolver um repertório e depois ele até oficializou – hoje, ele toca saxofone na igreja dele.

Josisley: Que legal.

Fábio: Então, cada surdo é uma realidade. E eu tenho surdo, aluno surdo, por exemplo, que é implantado – que é outro fato. Surdo que fez um implante coclear e, às vezes, para fazer uma regulagem da equalização desse implante, ele leva 8 meses. Quer dizer, ele põe o implante, só que o SUS só agenda para ele com a fono para poder fazer a equalização depois de 8 meses. Então, ele fica com aquele implante fazendo ruído, barulho, que dá dor de cabeça, dá labirintite. Para ele, é melhor desligar. Quando ele equaliza, aí o meu trabalho é outro. Meu trabalho vai ser mostrar para ele que aquele ruído pode se transformar em som. Então, eu tenho que dar um sentido para aquele ruído que antes ele não sentia, e agora ele ouve e aí eu tenho que dar um sentido para isso: que é forte, que é fraco, que é agudo, que é grave, que é denso ou não…

Josisley: É um trabalho muito intimista. Muito intimista. É, bem, eu não consigo falar de outra forma, porque eu dou aula na minha igreja também de música – aula que eu digo é como ler e tal, enfim, uma coisa bem mais simplista do que o maestro faz e já tem (as) [00:36:00] dificuldades. Imagino, meu deus do céu… vamos voltar para o garoto lá, agora que já baixou um pouco a minha adrenalina. Você entra na sala, em vez de estar fazendo a abelhinha que é a vibração do lábio no bocal, o cara está cantando dentro do bocal porque o instrumento vibra. E aí?

Fábio: Aí, foi necessário… uma menina, uma outra menina surda que aí ela percebe isso, que ele estava com dificuldade, e aí ela faz o buzzy para ele. Então, olha só, que interessante: A Emily, ela pega a experiência dela para ajudar o colega. Então, ela se torna uma monitora, e ela também é surda. Então, é o surdo ensinando o surdo na música – a linguagem fica mais fácil, mais clara. Essa semana vi uma coisa assim no face, que falava justamente de criança e pipoca. Você coloca lá na panela, coloca o óleo, você coloca o milho de pipoca e coloca no fogo. Está todo mundo com o mesmo suporte, com a mesma ambiência. Porém, uma pipoca estoura na frente da outra. Todas vão estourar, mas cada uma tem o seu tempo de estourar. E na música é a mesma coisa. E aí há a necessidade, às vezes, da aula individual; há a necessidade, com certeza, da aula coletiva; e há a necessidade, com certeza, da prática de conjunto. Para que não fique uma coisa isolada, como se fosse apenas o código pelo código.

Josisley: Quanto tempo faz que você já está nessa pegada com pessoas surdas?

Fábio: Olha, com o surdo vem desde 2005 mesmo. Mas, eu fiz o primeiro curso de musicoterapia que veio para o Brasil, que foi Clementina Nastari, e isso foi em 86.

Josisley: Bastante tempo, é que agora você acabou chamando uma outra coisa: eu já ouvi alguma coisa de musicoterapia num podcast chamada Rede Geek. O pessoal falou sobre musicoterapia. E lá, eu lembro que era algo mais voltado para a área de psicologia. Eles usavam o mesmo termo musicoterapia, só que era voltada para a área de psicologia. Isso que você está falando de musicoterapia, é nessa mesma vertente, vertente? Como que você usa isso hoje?

Fábio: Então, eu penso que o educador tem que… não adianta só uma faculdade de pedagogia. Assim como nenhuma profissão mais, um único curso. Falar assim: “Ah, é só uma profissão”. Não, hoje é uma carreira. Então, você envolve vários conhecimentos. São várias capacidades a serem desenvolvidas. Eu penso que, de alguma forma, Deus foi me dando condições e abrindo portas para que eu pudesse construir esse know-how e chegar nessa experiência que eu tenho hoje. Porém, eu sempre tive muitos anjos na minha vida que foram abrindo essas portas. Então, em 86 foi quando eu comecei já reger a fanfarra da escola. Quando foi em 88, eu assumi a Casa de David – é uma instituição que cuida de crianças especiais. E, não só assim, mas ela também era crianças vindas da antiga FEBEM. E ali é que apareceu para mim a possibilidade de fazer esse curso de musicoterapia. E a musicoterapia ela tem isso mesmo – ela era voltada, na verdade… o musicoterapeuta não é o psicólogo; ele pode ser. A musicoterapia abre caminho de comunicação entre paciente e o terapeuta, que é o psicólogo. Então, ela seria uma terapia auxiliar. Ela me permitiu observar algumas características das deficiências, principalmente do surdo, que é o nosso assunto hoje, mas também do autista, do cego, do síndrome de down, X Frágil, entre outras. Assim, o conservatório me disciplinou com relação a isso porque falou assim: “Olha, a música, aqui, ela é para formação; ela não é terapia”. Então, o aluno surdo entrar aqui, ele vai fazer um curso de música. Pode demorar mais, por conta da deficiência dele, mas é uma questão de formação. O cego, a mesma coisa, o autista, mesma coisa. Então, a gente tenta não misturar as estações aí para a gente não se perder também, não é? Porque quando você fala musicalização ela é uma forma mais lúdica; quando você fala formação musical já para executar instrumento – executar bem – o instrumento, exige outras habilidades e a gente tem que dosar isso para não se perder no meio do caminho.

Josisley: Fantástico. Olha, fazia tempo que eu não era tão impactado com um bate-papo nesse nível e pelo o que você está deixando claro para gente, existem altos projetos, então, de músicos com pessoas com síndromes – n-síndromes – e a gente nem tem acesso a isso, nem sabia que isso existe. Que coisa…
Maestro Fábio, nós estamos batendo quase a nossa 1 hora aqui, depois o ouvinte fica reclamando que o podcast fica muito longo, não é? Obviamente que isso não é um podcast definitivo sobre a Música do Silêncio, mas com certeza, ele é uma porta de entrada para os nossos ouvintes que são ouvintes de bandas e fanfarras de todo o Brasil e que muitos deles, assim como eu, participou anos de bandas e fanfarras achando que o mundo era aquilo só e não tinha noção que tem tantas vertentes na música, e uma delas, esse trabalho maravilhoso, fantástico, e que falta adjetivos para falar o que o maestro executa aqui na cidade de São Paulo. Pela sua idade, pelo seu caráter, eu sei que você não precisa de tapinhas nas costas, mas me permita, com todo o respeito, nós estamos nos vendo aqui na câmera, obrigado pelo seu trabalho, maestro. Parabéns e obrigado, tá bom? Como eu falei para o maestro em off, em uma sociedade que neste momento em que estamos vivendo, uma sociedade dividida, com muitas perguntas sem respostas e com muitos individualismos – nós estamos sendo forçados a olhar mais para a gente, ou melhor, a olhar mais para quem está a nossa volta, eu tenho certeza que em todo o Brasil – em todo o mundo hoje – no momento em que a gente está gravando isso, as pessoas estão sentindo falta uma das outras, não é? E esse seu trabalho que é tão dedicado ao ser humano, a pessoa não escuta, mas ela é um ser humano tão quanto eu. Então, fica aqui registrado, por mais banal que possa parecer a alguns, fica aqui para registrar.
Maestro, fala para a gente, como que está hoje o seu trabalho? Você está tanto tempo aí lutando, trabalhando… Graças a Deus eu vi que existe algum – mesmo que raso – algum reconhecimento midiático. A gente vê algumas coisas na mídia, vira e mexe eu vejo que você está em algum jornal dando alguma entrevista e isso é muito bom, para isso que o maestro está fazendo. Fala um pouco como que está hoje, qual que está o formato hoje?

Fábio: Hoje, eu não sei se você sabe, mas o prefeito João Dória, quando assumiu a prefeitura de São Paulo, ele demitiu todos os instrutores e professores de banda de fanfarra.

Josisley: Eu sei.

Fábio: Não é? Infelizmente, eu tinha 24 anos de trabalho dentro da prefeitura de São Paulo. Porém, eu acredito que realmente Deus está à frente e vai abrindo as portas que são necessárias. Eu também já era concursado no Conservatório Municipal de Guarulhos. Assim que ele saiu, eu fui chamado para assumir a coordenação do Conservatório Municipal de Guarulhos. Então, eu mantenho trabalho da Música do Silêncio e também hoje coordeno o departamento de música da cultura de Guarulhos. Agora, juntou-se à nossa divisão também uma seção, uma subdivisão, que seria de formação cultural. Então, toda a parte de oficinas de teatro também está sob a nossa coordenação. Na parte de música, eu tenho encontrado muito apoio do SESC. O SESC tem dado muitas oficinas, muitos cursos de formação, não só para a pessoa com deficiência, mas para família e para professores também, para capacitar outros professores nas universidades. Tenho encontrado também muito eco na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a UEM, que é a Universidade Estadual de Maringá, aqui em são Paulo; as universidades particulares também, principalmente os cursos de pedagogia com a inclusão agora é lei, as pessoas precisam se capacitar, porque elas não podem mais rejeitar porque falam “Ah, não é compatível com o ambiente música”… Hoje, se uma criança aparecer e tiver interesse, tem que ser enquadrado, tem que ser absorvida. Quer dizer, quem é que tem de procurar a mudança? Não é a criança que já tem a deficiência; é o profissional, aquele que decidiu trabalhar com música e educação. Então, ele precisa se capacitar. Eu tenho a satisfação de ter feito o trabalho de capacitação também do Projeto Guri, no estado de São Paulo, onde nos capacitamos supervisores e assim eles puderam fazer a multiplicação nos polos. Então, sinto que ainda há muito para a gente desbravar, mas a gente já avançou bastante. Se eu lembrar da época de 86, que eu saía com os alunos da Casa de David desfilando, onde alguns na cadeira de rodas, outros no skate… ali era mais uma questão de deficiências intelectuais e nós colocávamos o uniforme e íamos, viu? Teve uma apresentação interessante que a criançada olhou ali o colégio técnico paralelo, que vinha com aquele uniforme tipo da guarda real inglesa, aquele capacete, aquela toda de pelúcia preta, uma coisa assim. E as crianças ficavam olhando assim: “Quem são esses cabeçudos? Quem são esses cabeçudos…?”. Então, eu senti todo esse tempo a diferença no trato, na valorização dos profissionais que trabalham com inclusão e não poderia ser diferente. Hoje 1 em cada 68 crianças nasce autista. Então, nós precisamos nos preparar para acolher. Hoje, dificilmente você tem um surdo puro, porque o surdo ele tem a… mãe, tem um bom pré-natal e acaba evitando muitos programas mesmo de formação. Hoje, o surdo ele vem com outras deficiências também, e a gente tem que estar preparado. Eu continuo estudando, não paro de estudar. Busco um aprimoramento e espero um dia poder colocar tudo isso em um livro aí, e deixar para a posteridade.

Josisley: Precisamos desse livro ontem à tarde, para deixar aqui registrado. Temos urgência desse livro. Como já falei, maestro, esse podcast é só uma porta de entrada para muitos, assim como está sendo para mim. Tem muitas coisas que eu vou querer pesquisar depois de escutar o maestro falando aqui com a gente e desde já eu quero agradecer a disponibilidade do seu tempo para compartilhar as suas experiências aqui com a gente. Foi de grande valia, muito valor mesmo. Muito obrigado. É isso. Vamos agora para a nossa Dica Cultural.

Dica Cultural:

Josisley: Muito bem, Dica Cultural. A Dica Cultural é um momento que eu peço para o nosso convidado sugerir um filme, um livro, uma série, um espetáculo – apesar de que a gente não está muito em um momento de espetáculos aqui no Brasil -, sei lá, um sabor de pizza, um restaurante, qualquer coisa, um prato para se fazer em casa… Enfim, o maestro tem aí liberdade para fazer alguma indicação cultural para a gente. Mas, pra não te colocar no fogo eu vou dar a minha indicação primeiro e aí na sequência o maestro fala, tá?

Fábio: Tá bom.

Josisley: E a minha indicação é um filme que eu assisti hoje. Estava aqui e já assisti hoje. É um filme da Netflix, então, ele vai ficar por muito tempo lá no catálogo, chamado O Poço. Para quem já assistiu O Parasita – um filme que ganhou o Oscar – precisa assistir esse filme. É um filme espanhol, com a temática justamente de algo que a gente falou aqui que são questões sociais, essas questões que chegam para o maestro que não são apenas deficientes ou surdos; são pessoas também socialmente desprotegidas, ou frágeis, por assim dizer. Então, esse filme vai tratar um pouco dessa fragilidade social, tem uma crítica muito boa e algumas camadas ela vai falar muito de esperança também. É a minha dica, assistam o filme O Poço, da Netflix. Maestro, agora é com você.

Fábio: Bom, então eu vou aproveitar e, como você está falando alguma coisa bem recente, eu vou colocar uma coisa bem antiga: Encontrando Forrester.

Josisley: É bom esse filme?

Fábio: É muito bom.

Josisley: Eu sei que filme é, mas eu me lembro, assim, que o banner ele não me chamou atenção, eu nunca assisti.

Fábio: Fala de um resgaste mesmo social e o poder que tem o professor. Poder que tem de transformar uma vida que, muitas das vezes, nem sabia que tinha aquele potencial. Então, quando a gente encontra o potencial naquela criança, naquele jovem, naquele adolescente, muitas das vezes marginalizado, e quando ele se empodera disso, ele consegue transformar o mundo.

Josisley: Encontrando Forrester. Eu estou tentando lembrar, eu acho que tem aquele ator que fez o Silêncio dos Inocentes, não é?

Fábio: Anthony Hopkins?

Josisley: Ele mesmo. É com ele? Você não lembra?

Fábio: Não, não, é um outro. Eu esqueci o nome do… Sean Connery.

Josisley: Sean Connery. Caramba, é verdade. É que ele já estava com o cabelo… Encontrando Forrester. É com Sean Connery mesmo. É com Sean Connery. E essa capa, eu estou vendo na capa aqui agora. Não me deu vontade de assistir na época, possivelmente, até por ser um drama. 2000, não é? É um filme de quase 20 anos aí. Muito bom. Então, fica aí a indicação do maestro. Vai ter link aqui no post para quem quiser ver alguma resenha, e tal. Vai ficar fácil aí. Vamos agora, para o Toca na Pista.

Toca na Pista:

Josisley: Maestro, Toca na Pista é o momento em que o nosso convidado escolhe uma música para a gente encerrar o programa, mas não pode ser qualquer música – tem que ser aquela música do coração, tem que ter uma historinha aí, por trás, o porquê você estar escolhendo essa música, e não precisa necessariamente de bandas e fanfarras. Lá trás, eu até pedia que fosse, mas, de um tempo para cá, eu abri aí porque tem muita música que marcou momentos, não é? Então, fica à vontade.

Fábio: Olha, nesse momento que nós vivemos, onde muitas dificuldades na Itália e tudo o mais, eu não poderia pedir outra música a não ser O Coro dos Ferreiros.

Josisley: Coro dos Ferreiros?

Fábio: É.

Josisley: E por quê?

Fábio: Fala sobre a opressão, é uma música que a Itália inteira canta quando a orquestra toca.

Josisley: Sério?

Fábio: É, coisa de, talvez precisassem desse ânimo.

Josisley: Legal. Cordo dos Ferreiros. Então vai ser nossa música para terminar. Agora, você participou de campeonatos de bandas e, aqui eu vou pegar você de supetão mesmo, para eu colocar lá na abertura, eu preciso de uma música bacana de abertura, de entrada em campeonato. Tem alguma que você se lembra, que quando tocava no campeonato você falava “Pô, essa música é demais” ou que você mesmo tocava? Não vale o All the Way, do Progresso, tá?

Fábio: Ah, não, não… Olha, As Estepes, Jardim São Paulo tocava.

Josisley: Ah….

Fábio: Uma música russa.

Josisley: Russa… As Estepes, Jardim São Paulo, muito bem. Então, se deu tudo certo, a abertura desse programa foi com As Estepes, Jardim São Paulo. Aí, já era o Marcelo, ou ainda era antes, quando ainda estava a Cristina?

Fábio: Não, a Cristina.

Josisley: Era a Cristina…

Fábio: Eh…

Josisley: Legal. Temos podcast com a Cristina, o especial agora de 2020 das mulheres, ela participou. Maestro, mais uma vez, muito obrigado. Eu esqueci uma coisa muito importante: quem quiser conhecer um pouco mais o seu projeto, tem site, tem e-mail, tem Instagram, tem youtube? Está certo que eu vou colocar alguns links aqui, mas se o senhor quiser reforçar aí um site, alguma coisa, para o pessoal acessar?

Fábio: Tenho. É o site bandamusicadosilencio.com

Josisley: Ótimo, lá o pessoal encontra as redes sociais, vídeos… quem quiser tem tudo lá. Ótimo, muito bem. Mais uma vez, muito obrigado, maestro. Esse foi o nosso maestro Fábio Bonvenuto. Para escutar esse e outros podcasts, você pode acessar pelo spotify, pelo Deezer, Google podcasts e também pelo nosso aplicativo exclusivo para Android e, claro, no nosso site toque2.com.br. Valeu, pessoal. Até o próximo Toque2.

Fábio: Tchau, tchau.

TOCA:  Coro dos Ferreiros / G. Verdi

FIM.

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